quinta-feira, 7 de julho de 2016

A verdadeira glória só nasce da dor


Ao longe, uma multidão assiste – com o habitual enlevo, é natural – a um desfile dos granadeiros da Rainha em seu uniforme de gala.

De há muito, a tática militar tornou inúteis fardamentos como este: calças pretas, dólmãs vermelhos com cinturão e ornatos brancos, luvas brancas, grande gorro de pele. Mas ele se conserva para efeitos morais: manter a tradição do exército e fazer sentir ao povo o esplendor a vida militar.

A glória, com efeito, deve exprimir-se por símbolos. Deles se serve Deus para manifestar aos homens a sua própria grandeza. E nisto, como no mais, devemos imitar a Deus. Ora, o uniforme dos granadeiros, sua marcha impecavelmente cadenciada e alinhada, a ufania com que o porta-bandeira conduz o pendão nacional e o baliza indica o rumo da marcha, o rufar dos tambores e o toque dos clarins, tudo em uma palavra, exprime a beleza moral inerente à vida militar: elevação de sentimentos, abnegação até o sangue, força de empreender, arriscar e vencer, disciplina, gravidade, heroísmo enfim.

Há glória, e verdadeira glória, a brilhar em todo este ambiente.

* * *

Mas, afinal, a glória é isto? Consiste em vestir um uniforme anacrônico, executar manobras que já não têm nenhuma correspondência real com a batalha moderna, tocar tambores e clarins, e pisar firme no chão para adquirir para si e dar aos outros a impressão de que se é herói? Em avançar "corajosamente" num campo sem obstáculos nem riscos, como quem vai de encontro a um inimigo que não está presente, e ganhar por prêmio os aplausos inebriantes da multidão? Isto é glória? Ou é teatro, representação, opereta?

* * *

Temos em nosso segundo clichê a outra face da glória militar. Imerso inteiramente na tragédia da luta armada, este jovem soldado da guerra da Coréia parece não ter idade definida. Da mocidade tem ele a robustez. Mas o viço, o brilho, a louçania sumiram. Sua pele, curtida por dias intérminos de sol, noites inteiras de vento e tempestade, parece ter tomado uma consistência não muito diversa do couro. No traje, nem a mais leve preocupação de elegância: tudo está disposto para agasalhar contra a rudeza do clima e permitir movimentos desembaraçados e ágeis, na lama, no mato, na escarpa dos morros, sob a ação implacável dos bombardeios.

A luta, a resistência e o avanço são os objetivos a que tudo neste homem está ordenado. Sua fisionomia de há muito não é iluminada por um sorriso, seu olhar parece imobilizado na vigilância contínua contra os homens e os elementos.

Nele não há a preocupação dos grandes lances, nem dos gestos teatrais. Está voltado pra as mil trivialidades da vida cotidiana autêntica das guerras. Não quer ele representar para si ou para os outros um grande papel. Quer a vitória de uma grande causa. É o que explica sua seriedade, sua dignidade e sua força de resistência.

Ele todo está penetrado até as últimas fibras por um grande cansaço e uma grande dor. Mas um cansaço menor do que a inflexível resistência de alma e corpo que o supera e vence. Uma dor conscientemente sentida, e aceita até seus últimos limites e conseqüências, por amor à causa por que ele está lutando.

Esta é a face dolorosa e talvez trágica da vida militar. Nisto é que está o mérito, daí é que nasce a glória.

Uniformes vistosos, armas luzentes, marchas cadenciadas, desfiles aparatosos, clarins, tambores, aplausos sem fim de uma assistência inebriada, tudo isto são exterioridades legítimas, necessárias até, na medida em que exprimem um desejo de lutar e de se sacrificar pelo bem comum. Mas tudo isto não passaria de opereta, se esta coragem não fosse autêntica e provada, como o é, aliás, pelos granadeiros da Rainha Elizabeth.

* * *

Considerações de ordem natural, é certo. Nelas podemos, porém, colher matéria para nos elevarmos a um campo mais alto.

A vida da Igreja e a vida espiritual de cada fiel são uma luta incessante. Deus dá por vezes à sua Esposa dias de uma grandeza esplêndida, visível, palpável. Ele dá às almas momentos de consolação interior ou exterior admiráveis.

Mas a verdadeira glória da Igreja e do fiel resulta do sofrimento e da luta.

Luta árida, sem beleza sensível, nem poesia definível. Luta em que se avança por vezes na noite do anonimato, na lama do desinteresse ou da incompreensão, sob as tempestades e o bombardeio desencadeado pelas forças conjugadas do demônio, do mundo e da carne. Mas luta que enche de admiração os Anjos do Céu e atrai as bênçãos de Deus.

(Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo nº 78, Junho de 1957)

Um comentário: