domingo, 10 de julho de 2016

Dois modos de ver a vida do campo


Seis horas da tarde. A faina diária está terminada. A nobre tranqüilidade da atmosfera envolve a vastidão dos campos, convidando para o repouso e o recolhimento. Um crepúsculo cor de ouro transfigura a natureza, fazendo brilhar em todas as coisas um reflexo longínquo e suave da inexprimível majestade de Deus. Ouve-se o tilintar do Ângelus, amortecido pela distância. É a voz cristalina e material da Igreja, que convida para a oração. Rezam os camponeses. São dois jovens cujo físico manifesta a um tempo saúde e hábito já antigo de trabalho manual. Seus trajes são rústicos. Mas em todo o seu ser transparece a pureza, a elevação, a natural delicadeza de almas profundamente cristãs. Sua condição social modesta é como que transfigurada e iluminada por sua piedade, que incute respeito e simpatia. Em suas almas refulgem os raios dourados do sol, mas de um sol muito mais alto por todos os títulos: a graça de Deus.

Verdadeiramente, sua beleza de alma é o centro do quadro, o ponto mais alto da emoção estética. É linda a natureza, mas ela não serve senão de ambiente paro a manifestação da beleza dessas almas reunidas pelo Filho de Deus.

Nada nestes camponeses indica desassossego ou mal-estar. Eles são inteiramente conformes a seu meio, a sua profissão, a sua classe. Que outra dignidade, que outra ventura poderia desejar este casal?

Millet (Jean-François Millet - 1857-1859) reuniu admiravelmente em sua tela ( L'Angélus - Musée d'Orsay - Paris ), os elementos necessários para que se compreenda a dignidade do trabalho manual na atmosfera plácida e feliz da verdadeira virtude cristã.

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Nem todos os momentos da vida do campo são assim. Millet apanhou, no que chamaríamos um instantâneo feliz, um momento culminante de beleza material e moral. Mas seu quadro tem o mérito de ensinar os homens a ver, dispersos na rotina da existência rural quotidiana, os lampejos genuínos e freqüentes desta fisionomia cristã das almas e das coisas num ambiente verdadeiramente vivificado pela Santa Igreja.

A atitude de espírito de Millet, que ele comunica a quem contempla sua obra prima, está toda voltada para Deus, e para os reflexos de beleza espiritual e material que Ele projeta na Criação.

Numa crítica psicológica do quadro, para ser exato, deveria deplorar apenas algum excesso de sentimentalismo.

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Poder-se-ia fazer o mesmo elogio do quadro de Yves Alix(1890-1969), também inspirado na vida dos campos, "Le Maitre des moissons"?

O autor não percebeu, não sentiu, não aceitou em sua visão do trabalho agrícola nada daquilo por onde ele se torna digno de ser praticado por um filho de Deus.

Neste quadro, não foi o espírito que dominou a matéria e a enobreceu; foi a matéria que penetrou o espírito e o degradou. Nos corpos, o trabalho material imprimiu uma brutalidade por assim dizer facinorosa. As fisionomias exalam um estado de espírito que lembra o botequim e o campo de concentração. Se os personagens do segundo plano não parecessem de tal maneira endurecidos, se fossem capazes de chorar, suas lágrimas seriam de fel; se fossem capazes de gemer, seus gemidos seriam como o ranger de engrenagens. A tristeza, a maldade, a cacofonia das cores, das formas e das almas se exala pela voz do personagem do primeiro plano. Não se sabe bem o que exclama, se uma ameaço ou uma blasfêmia.

Yves Alix reuniu e exagerou e deformou até o delírio os aspectos por ande o trabalho é uma expiação e um sofrimento, e a terra um exílio; exprimiu com uma fidelidade meticulosa - e como que entusiasmada! - o que na alma humana há de mais atroz e mais baixo, para apresentar o conjunto como aspecto real e normal da vida quotidiana, espiritual e profissional do trabalhador.

E por isto, enquanto da obra prima de Millet se evola uma prece, do pesadelo de Yves Alix se desprende um bafo de revolução.

Se Deus permitisse aos anjos embelezar a terra e a vida, eles o fariam no sentido de tornar mais freqüentes, mais duráveis, mais belos os aspectos que Millet procurou observar e reunir. Se Ele permitisse aos demônios desfigurar os homens e a criação, estes formariam, na alma e no corpo, e nos aspectos das coisas, personagens e ambientes como os do quadro de Yves Alix.

(Plinio Corrêa de Oliveira, Dois modos de ver a vida do campo, Catolicismo nº9, Setembro de 1951)

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Têm os símbolos, a pompa e a riqueza uma função na vida humana?

Chegou o momento de dizer algo sobre as críticas feitas por Lord Altrincham e parte da imprensa britânica à Rainha Elizabeth.

Em resumo, Lord Altrincham e seus sequazes atacaram Elizabeth II por julgar que sua apresentação, seu modo de ser, o tônus aristocrático da corte inglesa são incompatíveis com a idéia que nosso século igualitário faz de uma Rainha.

O que pensar disto?

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Que a crítica de Lord Altrincham é espantosamente superficial, ou fundamentalmente insincera. Pois se nosso século é tão igualitário que as mais belas tradições do passado monárquico e aristocrático não podem sobreviver, então também a própria monarquia não tem mais razão de existir. O que Altrincham pediu foi, no fundo, a transformação da monarquia em instituição pequeno-burguesa. Ele quereria Elizabeth II vestida, não como Rainha da Inglaterra, mas como rainha de beleza de arrabalde, capaz de figurar sem demasiada dissonância ao lado de Kruchev e Bulganin nas cerimônias oficiais. Se ele não o percebeu, foi superficial. Se o percebeu, foi insincero quando formulou suas críticas como monarquista. Pois por sua boca falava um igualitarismo essencialmente antimonárquico.

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Sobre Altrincham, é quanto basta. Não merece que se perca mais tempo com ele.

Vamos ao mérito da questão. É verdade que o cerimonial monárquico inglês é anacrônico e deve ser plebeizado?

A pergunta está mal formulada. Importa agir, não segundo os caprichos deste ou daquele século, mas segundo a ordem posta por Deus na criação.

Quis a Providência que houvesse na natureza os materiais belos e preciosos com os quais o engenho humano, retamente movido por um anelo de beleza e perfeição, produz as jóias, os veludos, as sedas, tudo enfim que serve para o ornamento do homem e da vida.

Imaginar uma ordem de coisas - qualquer que seja a forma de governo, aliás - em que tudo isto fosse proscrito como mau, seria rejeitar dons preciosos concedidos para a perfeição moral da humanidade.

De outro lado, Deus deu ao homem a possibilidade de exprimir por gestos, ritos, formas protocolares, a alta noção que tem de sua própria nobreza, ou da sublimidade das funções de governo espiritual ou temporal que por vezes é chamado a exercer. Daí, além do luxo, a pompa como elemento natural da vida de um povo culto.

Esses recursos decorativos foram feitos para adornar a tradição, o poder legítimo, os valores sociais autênticos, e não para serem o privilégio de arrivistas e nouveaux-riches que estadeiam sua opulência — para o que nada os preparou — em boates, cassinos, ou hotéis suntuosos. E muito menos para serem trancados nos museus como incompatíveis com a simplicidade funcional e a sisudez lúgubre de um ambiente mais ou menos sovietizado.

Assim entendidos, esses elementos decorativos têm essencialmente uma admirável função cultural, didática e prática, da maior importância para o bem comum.

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Num balcão, a Rainha, o Duque de Edimburgo e seus dois filhos se apresentam aos aplausos da multidão. Séculos de gosto, finura, poder e riqueza prepararam pacientemente essas jóias magníficas, essa indumentária nobre, essa perfeita estilização de atitudes e expressões fisionômicas.

Considerando as conveniências do corpo, é bem possível que a Rainha achasse mais cômodo nessa hora estar de peignoir e chinelos fazendo tricot, o Duque preferisse estar numa piscina, e as crianças rolando num gramado. Mas eles compreendem que essas coisas só se fazem em particular. Elas podem ser boas, por exemplo, para um pastor fazê-las diante de seu rebanho de irracionais; não porém para um chefe de Estado se impor ao respeito de um povo inteligente. A animais se tange fazendo uso de um bordão e dando capim. Para homens, são necessárias convicções, princípios, e em conseqüência símbolos em que tudo isto se exprima.

Quando a Família Real assoma assim ao balcão, ela simboliza a doutrina da origem divina do poder, a grandeza de sua nação, o valor da inteligência, do gosto, da cultura inglesa. As multidões aplaudem. Do mundo inteiro, vêm pessoas desejosas de contemplar esta manifestação de grandeza da Inglaterra. E, ao terminar, todos se dispersam dizendo: "que grande instituição, que grande cultura, que grande país".

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Aqui está, em nosso segundo clichê, Elizabeth em trajes comuns. Imagine-se que doravante ela só se apresentasse assim ao povo. Quem viria para vê-la? E, vendo-a, quem pensaria na glória da Inglaterra?

Dos poucos que acorressem para a ver, a quase totalidade pensaria: que moça simpática. A alta finura, a distinção tão autêntica da Rainha, velada pela banalidade dos trajes hodiernos, muitos não a notariam. E como de moças simpáticas estão cheias as ruas, praças, cinemas, ônibus e metrôs, a coisa ficaria nisso.

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Admirável, legítimo, profundo poder dos símbolos! Só o nega quem não tem inteligência para compreendê-lo. Ou quem quer destruir as altas realidades que estes símbolos exprimem. E ai do país em que — qualquer que seja a forma de governo, repetimos — a opinião pública se deixa transviar por demagogos vulgares, endeusando a trivialidade e simpatizando só com o que é banal, inexpressivo, comum.

(Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo, Nº 82, Outubro de 1957)

Miniatura de Rei, e protótipo de servo

Uma situação modesta. Trata-se de um soldado, veterano de guerra, do exército inglês.

Mas esta situação modesta tem suas glórias. O mérito de uma existência inteira transcorrida no serviço da pátria, e num serviço que tem a peculiaridade de ser luta. Luta cheia de riscos, que comportam o sacrifício da saúde e até da vida.

Todas estas glórias se refletem no traje, modelado por uma longa tradição para ser o símbolo dos altos valores morais que uma carreira militar, ainda que modesta, contém em si.

As medalhas lembram serviços, e perigos enfrentados em prol da Inglaterra. Os galões indicam uma graduação que, se bem que inferior merece ser assinalada. O tecido excelente da farda, seus belos botões, seu corte distinto exprimem quanto a sociedade reconhece e admira esta modesta situação. O tricórnio solene e elegante acentua esta impressão. Assim apresentado, o personagem se sente digno, calmo e feliz. Seu olhar e seu porte exprimem o hábito em que está, de ser respeitado. A fisionomia tem algo de sobranceiro, que a venerabilidade da barba alva ainda marca mais. A considerar o rosto, pensa-se vagamente em Jorge V. E de fato este modesto militar é, no fundo, uma minúscula imagem do Rei.

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Um chefe de Estado, déspota temido e incontrastável de todas as Rússias. Cabelo desgrenhado, bigodeira vulgar, face grosseira e brutal, gesto impetuoso e violento, traje carente de qualquer elevação ou distinção. Nada o diferencia de um servo, de um desses servos que modelaram sua alma na freqüentação dos botequins, e são botequineiros em todas as camadas mentais ou físicas seu ser.

Nada, nele, indica qualquer coisa de elevado, nada exprime a grandeza e a dignidade do poder supremo. Ou, mais simplesmente, a grandeza e a dignidade de um homem correto.

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Modesto soldado, elevado a uma situação que é a miniatura de um Rei: beneficiário feliz de uma civilização que foi outrora católica, e em cuja alma está o instinto de tudo elevar e engrandecer.

Poderoso ditador, rebaixado, como apresentação e como pessoa, ao nível do último servidor: símbolo de uma ordem de coisas satânica, que por adoração à igualdade tem por instinto rebaixar e degradar tudo!

(Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo, Nº 76, Abril de 1957)

Princípio da gradualidade, regra ardilosa do progresso do mal

Desejamos hoje pôr em evidência um dos princípios mais essenciais do triste roteiro seguido pelo Ocidente, partindo de suas tradições culturais e sociais cristãs, para o paganismo total, do qual já se acha tão próximo.

Trata-se do princípio que chamaríamos da "gradualidade". A corrupção, em sua longa marcha vitoriosa não fez saltos. Pelo contrário, soube progredir por etapas tão insensíveis que ninguém, ao longo da trajetória, prestava atenção ao deslizar das idéias, dos costumes e das modas. E com isto o caminho percorrido docilmente pela humanidade foi imenso...

A maior parte dos costumes lamentáveis de nossos dias apareceu timidamente no século XIX. Publicaremos oportunamente a descrição dos primeiros banhos de mar a que começou a se afeiçoar a alta sociedade francesa ainda antes da revolução de 1830, acompanhando-a do material ilustrativo competente. O termo de comparação, que seria o maillot de banho absolutamente moderno, não o poderemos publicar, pois já "evoluiu" tanto que macularia as páginas de um jornal católico. Quem tivesse dito às nobres e discretas damas que em plagas francesas iniciaram a moda, como se banhariam as elegantes de 1920 por certo lhes teria causado muita surpresa. E talvez, para evitar tais excessos, tivessem elas, até, suspendido o costume ainda incipiente. E o que diriam por sua vez em 1920 as elegantes, se pudessem ver como elas próprias ou suas filhas e netas tomariam banhos de mar e de piscina em 1956? Provavelmente, esta antevisão teria suscitado nelas uma reação salutar. Mas, como ninguém previa tais excessos, a moda continuou seu curso. Em 1956, é-nos lícito perguntar: como estarão as coisas em 1986?

Nenhum princípio nos parece mais importante de difundir, do que este da gradualidade das transformações da moda, se queremos despertar uma reação que já tarda...

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Hoje trataremos mais especificamente da masculinização da mulher, fenômeno absolutamente tão deplorável e ridículo quanto seria a efeminação do homem.


Nossa primeira gravura representa duas senhoras, muito jovens, e uma menina, em um interior confortável de há cerca de cem anos atrás. O ambiente em que se movem é caracterizado por uma certa gravidade.

As cortinas são espessas, a cadeira é grande e nobre, o cachepot de linhas distintas e robustas tem apuradas decorações, um belo tapete cobre todo o chão. Mas ao mesmo tempo os coloridos são alegres. As cortinas são de um verde muito claro, quase verde esmeralda, a senhora sentada, que é evidentemente uma visitante, traja um belo vestido de um verde musgo do outono europeu, e seu casaco tem borda de pele castanha. À cabeça, traz algumas flores. A senhora de pé veste-se de seda dourada brilhante. A menina tem um vestido azul, ornado com belas pregas. São dessa mesma cor as fitas que lhe ornam o cabelo e lhe pendem das tranças. Este misto de gravidade e graça caracterizava bem o ambiente da vida de família de outrora. Nele, a mulher podia expandir em toda sua amplitude, as preciosas qualidades típicas de seu sexo, a doçura, a afabilidade, a graça, a bondade e a distinção. As fisionomias das três pessoas em nosso clichê estão distendidas, plácidas, e impregnadas de afetividade, indicando um convívio marcado a fundo pelo que tem de mais suave a delicadeza feminina. Elas parecem encontrar-se como no elemento próprio para a prática natural e como que instintiva dos deveres cristãos da esposa, da mãe e da filha.

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Mas pouco depois a masculinização começava, timidamente, embora. Nas duas jovens do segundo clichê, há um começo de audácia, de dureza, de atrevimento, que contrasta com o quadro anterior. Tem-se a impressão de que algo de muito profundo -se bem que ainda muito discreto - se desajustou dentro delas, relativamente à vida do lar. Esta lhes parece um tanto insípida. Há um gosto manifesto de viver na rua, enfrentando imprevistos, passando por peripécias, levando enfim uma vida que já não é inteiramente voltada para os prazeres castos da família, e em cujo teor os momentos mais agradáveis são os que se empregam passeando como anônimos na multidão. Um que de masculino nos chapéus, no corte dos vestidos, e sobretudo na fisionomia dos personagens o diz bem.


Uma jovem moderna, num ambiente moderno. Não tivesse compridos os cabelos, e não seria fácil dizer-se-lhe à primeira vista o sexo. Ela respira por todos os poros o gosto da aventura, da luta dentro de uma vida que em nada se diferencia da de um homem, e que exige o cultivo de qualidades tipicamente masculinas. Um pouco mais, e a masculinização terá sido levada tão longe quanto possível.

Mas, dirá alguém, que mal há nisto?

É fácil responder. O mesmo mal que haveria em que os homens de hoje se penteassem, se vestissem e vivessem como as damas de nosso primeiro clichê.

Pura e simplesmente uma monstruosa subversão da ordem natural.

(Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo Nº 68, Agosto de 1956)

Depósito de livros? Ou também símbolo da dignidade do espírito?

Há dois modos de se conceber uma biblioteca. Um atende só ao aspecto material. Os livros, revistas, documentos, estantes, fichários e mesas devem ser conservados com segurança contra a umidade, os incêndios, as traças, os ladrões, etc. De outro lado, documentos, revistas e livros devem ser guardados de maneira a se encontrarem facilmente. Um edifício destinado a biblioteca, concebido "funcionalmente", deve pois corresponder a esse objetivo e não deve ir além desse fim prático.


Para realçar tal noção pode-se dar ao prédio, por exemplo, uma estrutura composta de quatro corpos sucessivamente mais altos, que sugerem a idéia de conjunto de uma imensa cômoda de linhas elementares, formada por quatro partes de tamanhos diversos, destinadas a guardar respectivamente e sem confusão objetos distintos por sua natureza. E, como nos móveis do gênero, podem-se colocar escaninhos por todo lado: são no prédio as janelas. Uma forte desproporção entre as partes da "cômoda" é o tributo pago à extravagância do século.

Está descrito assim, sumariamente, o edifício da Biblioteca Municipal de São Paulo.

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Admita-se, para efeito de argumentação, que esteja por essa forma atendido tudo quanto diga respeito ao livro, à revista, ao documento, ao fichário. E o homem? Melhor: e o leitor?

Entra aí a outra maneira de ver o edifício ideal para uma biblioteca. Concedido tudo quanto é necessário aos objetivos práticos, é preciso entretanto levantar as vistas mais alto. O prédio deve exprimir o aspecto fundamentalmente nobre do mister de ler e de estudar. Ele deve estar em relação com a hierarquia de valores que coloca, em certo sentido, o pensamento no ápice das atividades humanas, precedido apenas pela oração. E por isto deve o edifício ter, quanto possível, uma magnificência régia.

É a esta concepção que corresponde a biblioteca de Coimbra, construída na primeira metade do século XVIII.


Os livros, esplendidamente encadernados, estão dispostos em imensas e sólidas estantes, todas numeradas, onde podem ser facilmente classificados e encontrados. Com os recursos da época, era o que podia haver de "funcional". Mas por outro lado a suntuosidade da decoração tem algo de palácio e algo de igreja. O quadro do Rei de Portugal, D. João V, ao centro, ao mesmo tempo que presta homenagem ao monarca a quem se deve o prédio, põe em relevo quanta consideração tem aos estudiosos aquele que constitui o mais alto degrau na hierarquia política e social.

O edifício não atende só a um objetivo material, isto é, guardar papéis, pergaminhos, estantes, etc., mas também a um objetivo espiritual: realçar aos olhos de todos o prestígio do intelectual, tanto na ordem natural das coisas, quanto, conseqüentemente, na hierarquia de valores da sociedade temporal.

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Talvez objetasse alguém que a Biblioteca Municipal de São Paulo tem uma grandeza monumental que de algum modo constitui homenagem à intrínseca nobreza da vida intelectual.

A objeção não colhe. A nobreza não é um valor estritamente funcional, e não pode, pois, exprimir-se inteira e adequadamente, nem em termos de funcionalidade, nem em termos de tamanho. A nua e mera funcionalidade convém talvez às edificações de caráter industrial, em que a obtenção do produto preside a toda a concepção arquitetônica. Não, porém, a edifícios destinados a atender finalidades que, tendo embora algo de prático, transcendem entretanto do mero domínio da prática. No que diz respeito à quantidade, nela não se exprime tão adequadamente a nobreza, quanto na qualidade.

(Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo nº 119, Novembro de 1960)

A verdadeira glória só nasce da dor


Ao longe, uma multidão assiste – com o habitual enlevo, é natural – a um desfile dos granadeiros da Rainha em seu uniforme de gala.

De há muito, a tática militar tornou inúteis fardamentos como este: calças pretas, dólmãs vermelhos com cinturão e ornatos brancos, luvas brancas, grande gorro de pele. Mas ele se conserva para efeitos morais: manter a tradição do exército e fazer sentir ao povo o esplendor a vida militar.

A glória, com efeito, deve exprimir-se por símbolos. Deles se serve Deus para manifestar aos homens a sua própria grandeza. E nisto, como no mais, devemos imitar a Deus. Ora, o uniforme dos granadeiros, sua marcha impecavelmente cadenciada e alinhada, a ufania com que o porta-bandeira conduz o pendão nacional e o baliza indica o rumo da marcha, o rufar dos tambores e o toque dos clarins, tudo em uma palavra, exprime a beleza moral inerente à vida militar: elevação de sentimentos, abnegação até o sangue, força de empreender, arriscar e vencer, disciplina, gravidade, heroísmo enfim.

Há glória, e verdadeira glória, a brilhar em todo este ambiente.

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Mas, afinal, a glória é isto? Consiste em vestir um uniforme anacrônico, executar manobras que já não têm nenhuma correspondência real com a batalha moderna, tocar tambores e clarins, e pisar firme no chão para adquirir para si e dar aos outros a impressão de que se é herói? Em avançar "corajosamente" num campo sem obstáculos nem riscos, como quem vai de encontro a um inimigo que não está presente, e ganhar por prêmio os aplausos inebriantes da multidão? Isto é glória? Ou é teatro, representação, opereta?

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Temos em nosso segundo clichê a outra face da glória militar. Imerso inteiramente na tragédia da luta armada, este jovem soldado da guerra da Coréia parece não ter idade definida. Da mocidade tem ele a robustez. Mas o viço, o brilho, a louçania sumiram. Sua pele, curtida por dias intérminos de sol, noites inteiras de vento e tempestade, parece ter tomado uma consistência não muito diversa do couro. No traje, nem a mais leve preocupação de elegância: tudo está disposto para agasalhar contra a rudeza do clima e permitir movimentos desembaraçados e ágeis, na lama, no mato, na escarpa dos morros, sob a ação implacável dos bombardeios.

A luta, a resistência e o avanço são os objetivos a que tudo neste homem está ordenado. Sua fisionomia de há muito não é iluminada por um sorriso, seu olhar parece imobilizado na vigilância contínua contra os homens e os elementos.

Nele não há a preocupação dos grandes lances, nem dos gestos teatrais. Está voltado pra as mil trivialidades da vida cotidiana autêntica das guerras. Não quer ele representar para si ou para os outros um grande papel. Quer a vitória de uma grande causa. É o que explica sua seriedade, sua dignidade e sua força de resistência.

Ele todo está penetrado até as últimas fibras por um grande cansaço e uma grande dor. Mas um cansaço menor do que a inflexível resistência de alma e corpo que o supera e vence. Uma dor conscientemente sentida, e aceita até seus últimos limites e conseqüências, por amor à causa por que ele está lutando.

Esta é a face dolorosa e talvez trágica da vida militar. Nisto é que está o mérito, daí é que nasce a glória.

Uniformes vistosos, armas luzentes, marchas cadenciadas, desfiles aparatosos, clarins, tambores, aplausos sem fim de uma assistência inebriada, tudo isto são exterioridades legítimas, necessárias até, na medida em que exprimem um desejo de lutar e de se sacrificar pelo bem comum. Mas tudo isto não passaria de opereta, se esta coragem não fosse autêntica e provada, como o é, aliás, pelos granadeiros da Rainha Elizabeth.

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Considerações de ordem natural, é certo. Nelas podemos, porém, colher matéria para nos elevarmos a um campo mais alto.

A vida da Igreja e a vida espiritual de cada fiel são uma luta incessante. Deus dá por vezes à sua Esposa dias de uma grandeza esplêndida, visível, palpável. Ele dá às almas momentos de consolação interior ou exterior admiráveis.

Mas a verdadeira glória da Igreja e do fiel resulta do sofrimento e da luta.

Luta árida, sem beleza sensível, nem poesia definível. Luta em que se avança por vezes na noite do anonimato, na lama do desinteresse ou da incompreensão, sob as tempestades e o bombardeio desencadeado pelas forças conjugadas do demônio, do mundo e da carne. Mas luta que enche de admiração os Anjos do Céu e atrai as bênçãos de Deus.

(Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo nº 78, Junho de 1957)

"Tudo se reflete nos olhos: cólera, medo, afeto ou alegria"

Temos tratado muitas vezes de ambientes enquanto criados por edifícios, móveis, paisagens, etc. Seria interessante acentuar que o elemento principal de todo ambiente é o próprio homem. Verdade evidente no que diz respeito às idéias que o homem externa, e aos atos que pratica, e menos evidente talvez no que poderíamos chamar os imponderáveis da presença humana: o porte, a atitude, o olhar.

Detenhamo-nos na análise do olhar humano.


Nosso primeiro clichê representa uma das personalidades mais insignes do movimento ultramontano francês no século passado, Dom Prospero Guéranger, O. S. B., fundador e Abade do famoso Mosteiro de Solesmes, restaurador da Sagrada Liturgia, escritor exímio, e grande amigo de Louis Veuillot.

A fronte larga, os traços acentuados e vigorosos, indicam inteligência e pujança de personalidade. Mas tudo quanto estes traços possam significar está resumido, condensado, e levado à sua mais alta potência de expressão nos olhos. Grandes olhos claros, cheios de luz, nos quais parece nunca se ter espelhado qualquer fraqueza ou qualquer baixeza humana. Grandes olhos que parecem feitos para a exclusiva consideração do que há de mais transcendental nesta vida e para os imensos horizontes do Céu. Mas ao mesmo tempo olhar de uma invencível força perfurante em relação às coisas da terra, capaz de transpor todas as aparências, todos os sofismas, todos os artifícios dos homens, mergulhando até o mais fundo recôndito dos acontecimentos e dos corações. Alma de varão justo e contemplativo, que vê alto e vê fundo, porque vive imersa nas claridades de um pensamento lógico, iluminado por uma fé impecavelmente ortodoxa.

Diante de tal olhar, como não pensar nas belas palavras do Santo Padre Pio XII em sua alocução de 12 de junho p.p. aos membros do 1º Congresso Latino de Oftalmologia: "Tudo se reflete nos olhos: não só o mundo visível, mas também as paixões da alma. Mesmo um observador superficial descobre neles os mais variados sentimentos: cólera, medo, ódio, afeto, alegria, confiança ou serenidade. O jogo dos diversos músculos do rosto encontra-se de algum modo concentrado e resumido nos olhos, como num espelho".

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Dos grandes olhos que Dom Guéranger mantinha tão abertos para Céu e para esta vida, passemos para a admirável expressão de olhos que a morte cerrou, e que só se reabrirão "in novissimo die", para contemplar os terríveis esplendores do Juízo Universal.

Trata-se da admirável máscara funerária de S. Felipe Néri, o famoso apóstolo de Roma no séc. XVI. Tal foi o vigor de sua personalidade, que sua máscara mortuária por assim dizer ainda reluz de finura, de força, de uma ligeira e suave ironia que parece prestes a entreabrir os lábios num imperceptível sorriso; mas o "olhar" ainda é a nota mais expressiva, com uma fixidez, uma lucidez, uma força que transpõe não só as pálpebras mas os véus da morte e do tempo, deixando ver até o fundo a coerência, a robustez, a sanidade da alma que já se foi. Força, harmonia, lógica de Santo que mereceu ver no Céu a luz diáfana de Deus.

(Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo nº 45, Setembro de 1954)